Fora de escala

Reykjavík é, provavelmente, a maior prova da mania de grandeza dos islandeses. Favor não entender errado – não se trata de um sentimento arrogante, mas puramente nacionalista e patriótico. Durante muito tempo a Islândia esteve sob o domínio da Dinamarca, e a nação fundada pelos Vikings experimentou, por longas décadas, um sentimento de apatia e desinteresse pelo futuro de seu país. Contudo, movimentos nacionalistas começaram a nascer no país na 1ª metade do século XIX. No começo do século XX a Islândia obteve autonomia de governo, e em 1944 proclamou sua República, desvinculando-se de uma vez por todas da Dinamarca.

Desde então o país modernizou-se rapidamente, especialmente a sua indústria pesqueira. O Plano Marshall contribuiu para o crescimento da Islândia, que inclusive venceu uma disputa por áreas pesqueiras com a Inglaterra, conflito que os tablóides britânicos chamaram de “Cod Wars” (Guerras do Bacalhau). Seguindo o modelo keynesiano, a economia islandesa aderiu completamente ao liberalismo e tornou-se, para colocar em termos simples, um “enorme banco”, e justamente por isso foi um dos primeiros países a “rodarem” com a crise deflagrada no fim do ano passado.

Contudo, o sucesso da economia islandesa durante quase um século rendeu ao país um dos maiores PIBs per capita do mundo. Tudo é muito caro aqui, e mesmo assim a população consome fartamente. Carros (todos importados, por óbvio) dos mais luxuosos, construções modernas e que certamente custaram uma fortuna, lojas de artigos de luxo em cada esquina. Tudo isso contrastando com o ar calmo e tranqüilo de uma cidade – Reykjavík – de 120.000 habitantes, mas que jura por Deus que é uma megalópole.

O sistema de transporte urbano é insano. Passam ônibus por quase todas as ruas da cidade, E OLHA QUE TEM RUAS PRA CACETE! Outra mania nacional: dividir as cidades nos mííííííííííííínimos detalhes. Se você pega um mapa de Reykjavík, logo pensa: “puta merda, e eu achando que a cidade era pequena! Olha tudo isso!”. Ledo engano. Curiosamente, eu só encontrei UM mapa de Reykjavík que apresentava uma coisa que, apesar de eu não ser cartógrafo, desconfio que deva existir nos mapas desse tipo: ESCALA. Não tem. Provavelmente porque eles teriam de fazer a escala em PASSOS, e não em quilômetros. Por diversas vezes eu me confundi, porque no mapa a rua parecia gigante. Eu estava no começo dela e o shopping para onde eu queria ir, no fim. Mas eu estava vendo o shopping dali de onde estava. Levei quase cinco minutos para chegar lá. A própria rua em que a Monika morava, se estivesse num mapa de São Paulo, teria uns 2km. Mas ali em Reykjavík tinha exatamente 3 casas de comprimento.

O shopping mais central da cidade é o Kringlan, onde você pode encontrar praticamente tudo de que possa precisar. Sim, tem um McDonald’s. Mas o que eu queria era um chip de celular, que me custaria uns 5 dólares. Dei uma volta pelo shopping, olhando as lojas, admirando os preços e me sentindo o sujeito mais sem posses (para não dizer pobretão) do mundo. Bem, do país, se considerarmos que um pobre na Islândia está melhor que 85% da população do mundo.

Como e já disse, tirando o motorista de táxi que me levou à casa da Monika e provavelmente mais umas duas ou três pessoas, todo mundo fala inglês, a maioria muito bem. Não que eles morram de amores pelo inglês, mas, porra, só eles falam esse diabo de língua no mundo, então é de se esperar que, à exceção de uma meia dúzia de idiotas aficionados, ninguém vá se dar o trabalho de aprender islandês para visitar o país ou com ele realizar trocas comerciais.
Assim que habilitei o número, liguei para a Monika e disse que ia para “o centro” (hahaha) dar umas voltas e comer alguma coisa. Claro que, independente de o semáforo estar aberto, os carros param quando você se prepara para atravessar a rua, o que facilita ainda mais a perambulação pela cidade. Sim, porque VAI TER CARRO ASSIM NA PUTA QUE PARIU! Os islandeses talvez se orgulhem de existirem no país mais celulares (e ovelhas, e cavalos, e em breve cisnes e gansos) do que pessoas, o que não deveria querer dizer que precisassem ter mais carros do que pessoas para dirigi-los.

Como eu queria experimentar o transporte urbano, peguei um ônibus na frente do shopping para ir até o hotel onde eu ficaria. Arrependi-me amargamente, pois a “passagem” custa 280 krónur (2,30 dólares), e eu não fiquei nem cinco minutos no ônibus, isso contando uns 30 segundos parado num semáforo. E quando eu falei em “passagem” foi apenas para ilustrar. Ao lado do motorista tem uma caixa de acrílico onde você joga as moedas para pagar pelo transporte. Quando eu estendi as moedas para ele, ele apontou para a caixa. “Não quer conferir?”, perguntei, tolamente. Repeat after me: I AM NOT IN BRAZIL. HERE PEOPLE TRUST EACH OTHER. Joguei as moedas (juro que a quantia certa) na caixa e fui para o fundo do ônibus. Mal havia me acostumado com o quentinho dos assentos aquecidos e já tive de descer.

Reykjavík é tão pequena que a única maneira de você se perder na cidade é usando o mapa. Eles dão nome pra cada centímetro de rua, então é melhor confiar no senso de direção e, é claro, nos pontos de referência. Há igrejas espalhadas pela cidade toda, e são – à exceção dos novos prédios de 10 a 20 andares que estão sendo construídos na área do porto – os prédios mais altos. Num raio de 200m da casa da Mônica tem 3 igrejas. Mas não é de se iludir: a população não é assim tão religiosa. 82% da população se diz protestante, mas ultimamente só têm protestado em frente ao Parlamento, exigindo a cabeça do Primeiro-Ministro.

Quando desci do ônibus, em frente à prefeitura, vi que segundo o mapa eu estava a 5 quarteirões do hotel em que ficaria, mas, é claro, ele estava ali pertinho. A fachada era simpática, um prédio de 4 andares, antigo, com a cara da cidade. Entrei, não tinha ninguém na recepção. Comecei a andar pelo térreo e cheguei à cozinha. Havia cinco pessoas ali, todos mais ou menos da minha idade. A cozinha estava uma zona, com panelas, pratos e copos por todos os lados. Usados, claro. Armários abertos, pacotes de comida espalhados pelas mesas. Perguntei a uma moça se ela falava inglês (só pra testar o pouco de islandês que eu achava que havia aprendido), e à resposta afirmativa eu perguntei se ela estava hospedada ali. Com cara de pesar, ela disse que sim. Estava estudando na Universidade da Islândia, fazendo um curso de inverno, e como morava em Akureyri – no norte do país –, hospedara-se ali, já que era barato. Perguntei-lhe se estava gostando, e ela disse que havia se arrependido. Que os hóspedes eram barulhentos e vira e mexe faziam “festinhas” nos quartos. Se eu precisava de um motivozinho sequer para repensar na proposta que a Monika havia feito ainda quando nos falávamos pela internet – de alugar o 3º quarto da casa, por 5000 krónur a menos do que eu pagaria no hotel, isso foi o suficiente. Como não havia feito reserva formalmente, já que a proprietária disse que nesta época do ano era só chegar e pegar a chave, nem falei nada com ninguém ali no hotel. Saí de fininho, decidido a depois mandar um e-mail dizendo que “por motivos pessoais me impossibilitariam de me hospedar no hotel”. Vamos lá, não menti. Cozinha zoneada é um motivo muito pessoal, para mim. Era hora de ouvir da minha mãe a pergunta: “tá comendo direito???”, ou seja, procurar um telefone público para ligar para casa dizendo que eu estava na Islândia – vivo e (quase) quentinho.

6 comentários:

18 de janeiro de 2009 às 17:50 Rafa disse...

PRIMEIRAO!!!!!!!!!!!!!!

18 de janeiro de 2009 às 17:59 Rafa disse...

Isso tá parecendo Alfred Hitchcock. Tudo indo normalzinho q nem em "Os passáros". Tenho certeza q até o 15o post, sei lá, alguma coisa vai acontecer: quando passar pela rua q corta o lago em frente a prefeitura um ganso vai lhe arrancar uma perna lhe dando mordidas... ou Monika vai tentar te manter em cativeiro pra sei lá o q...

18 de janeiro de 2009 às 18:01 Rafa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
18 de janeiro de 2009 às 18:58 Anônimo disse...

vc tem q continuar com esse blog... mesmo quando voltar ao brasil!!!

19 de janeiro de 2009 às 07:14 Cesar Merigo disse...

Parabéns pelo blog! Uma verdadeira aula de historia que da prazer em participar!
Boa sorte a voce e continue escrevendo aqui!
Abraçao

20 de janeiro de 2009 às 14:23 ex_carola disse...

hummm... Monika, é? sei...

e olha que de vez em quando ele até lembra que tem mãe... Ela por acaso sabe o endereço do blog?

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