São Paulo

Último dia do ano. São Paulo está vazia. Quase todas as lojas estão fechadas, ao menos aquelas em que tenho algum interesse. McDonald’s fechar num dia que nem feriado é parece algo grave. Mas estava fechado.
Claro que, para variar, deixei para resolver algumas coisas no último minuto. Pessoas interessantes mantiveram-me no MSN, já que consegui um “gato” na conexão wireless de algum jacu no prédio. Pedi um táxi na portaria (que chique) e arrependi-me de imediato: o ponto ficava a mais ou menos quatorze segundos e meio a pé do prédio, o que significa que o taxista teve que esperar eu terminar de fechar as malas, tirar o lixo, trancar o apartamento e verificar se não estava esquecendo nada.
Ele esperou, eram 15h06 quando saímos do prédio. O airport bus service, e desconfio que o nome seja bastante auto-explicaivo, sairia da Praça da República às 15h30. Poxa, ali do comecinho da av. Higienópolis até a Praça da República eu faria, com mala, em 15 minutos a pé. De carro, sem trânsito, não podia levar mais que isso. Mas não contavam com a São Silvestre!
Pois é, desde as 10 da manhã diversos trechos da Consolação e arredores, incluindo a maioria dos acessos à Praça da República, foram fechados. O taxista gentilmente perguntou se eu tinha certeza de que os ônibus do airport service realmente sairiam dali naquele dia, já que o trânsito estava interrompido em boa parte da região. Eu não tinha certeza, apesar de o site anunciar os horários de partida naquele dia. Como a alternativa era pagar inimagináveis R$ 90,00 para o camarada (que parecia uma mistura do Ziraldo com o Woody Allen) me levar até o aeroporto, decidi arriscar. Já estava ali perto mesmo...
Quando chegamos o ônibus estava quase saindo. O taxista buzinou, claramente pedindo ao motorista que parasse, e aparentemente ele entendeu. Comprei a passagem voando e paguei o taxista. Tinha ficado nove reais, dei-lhe uma nota de vinte e disse:
“Pode... cobrar dez reais”.
Por causa da pausa estratégica e, claro, proposital, quase deu tempo do taxista achar que ia ganhar onze reais de gorjeta no último dia do ano. “Ei, amigo, amanhã é Ano Novo, não Natal!”, pensei. Bem, ele pode se consolar com o fato de que ganhou pouco mais de 11% de gorjeta, mais, portanto, que geralmente cobram.
No ônibus havia apenas mais duas pessoas: uma mulher de uns 30 anos, aparentemente meio louca, dentro de uma saia que obviamente era pequena demais para sua cintura, digamos, avantajada, além de um mauricinho que tentava, com a camisa que usava, mostrar que era forte, mas apenas deixava claro que ainda tinha muito o que malhar para (ao contrário da moça) preencher o restante da roupa.
Cheguei com bastante antecedência no aeroporto, o que foi bom, já que precisava fazer o cartão VTM na agência de câmbio – o que fiz depois de proceder ao check-in da mala a ser despachada. Não consigo lembrar o que comi no almoço, o que provavelmente significa que não foi nada especialmente bom. Passei pela segurança do portão, com medo das calças caírem quando a mulher pediu que eu tirasse o cinto. Não caíram graças à bolsa com dinheiro presa à cintura, por dentro das calças. Teria sido o primeiro mico da viagem, que, contudo, só veio a acontecer já a bordo (mais abaixo).
Os filhas das putas certamente embarcam o povão primeiro só pra vermos o que vamos perder por não termos dinheiro para comprar primeira classe. Bah! Quem queria uma poltrona com mais de 30cm de largura, comida que não parece borracha e suco vencido há menos de um mês?
Eu sentei numa poltrona do corredor, ao lado da janela – janela essa que, objeto do meu desejo quando comprei a passagem, estava ocupada por uma simpática chilena que não falava uma palavra de inglês nem de português nem de francês nem de sueco e que, pelo que pude entender através de meus parcos conhecimentos de espanhol (ou castelhano, ou o que o valha), largara o marido porque se apaixonara por um sueco que conheceu pela Internet. Estava indo a Paris, de onde seguiria para Gotemburgo, depois de ter deixado para trás uma filha e um filho, cuja guarda que o ex-marido lhe tomara. Aí ela vira e me diz (tradução simultânea ativada):
“Não aparento o que sou. Quantos anos você acha que eu tenho?”
Essa era fácil. Devia ter por volta de uns 46 ou 47. Mas por via das dúvidas, eu respondi:
“44”.
Ela fez uma cara de indignada, deu uma risada e disse:
“Não! Tenho 37! Todo mundo diz que pareço ter bem menos!”
“Trinta e sete do segundo tempo, né?”, pensei.
Envergonhado, pensei em tentar consertar, mas ia ficar pior. Então mudei de assunto e perguntei dos filhos.
Para resumir a novela, passamos 11 horas um do lado do outro, conversando ocasionalmente, e ela me mostrou os desenhos que o filho dela fez como presente de despedida. Aí veio o segundo fora, e nem havíamos chegado no Atlântico ainda.
“Quantos anos seu filho tem?”, perguntei.
Ela respondeu algo que eu não entendi, mas que, a julgar pela qualidade do desenho, deveria ser por volta de uns quatro ou cinco.
“Como? Cinco?”, insisti.
“Doze”.
É como dizem... fala menos bobagem quem fala menos.

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